Mark Rowlands em «O Filósofo e o Lobo» (2009, Ed. Lua de Papel, P. 15-16) escreve:«Este livro é também sobre o que significa ser humano - não enquanto entidade biológica mas enquanto ser que consegue fazer coisas que nenhum outro ser consegue. Nas histórias que costumamos contar sobre nós próprios, as características únicas que possuímos repetem-se como refrãos. Para uns, elas assentam na capacidade de criarmos civilização, e de assim nos protegermos da natureza, selvagem e perigosa. Para outros, é o facto de sermos os únicos seres capazes de distinguir o bem do mal e logo os únicos capazes de ser bons ou maus. Há quem diga também que somos únicos porque raciocinamos; somos animais racionais sozinhos num mundo de animais irracionais. Depois, há os que acham que é o uso da linguagem que definitivamente nos separa dos animais. E os que afirmam que somos únicos porque temos livre-arbítrio. Ou os que acreditam que a nossa singularidade assenta no facto de sermos os únicos com capacidade de amar. Ou que somos os únicos com capacidade para compreender a natureza e os fundamentos da verdadeira felicidade. Ou que somos únicos porque conseguimos ter a noção de que vamos morrer um dia.
Não acredito que alguma destas histórias consiga criar um abismo categórico entre nós e os outros seres. Há coisas que achamos que eles não conseguem fazer, mas até conseguem. E há coisas que achamos que conseguimos fazer, mas até nem conseguimos. Quanto ao resto — bem, diria que é sobretudo uma questão mais de grau do que de espécie. A nossa singularidade baseia-se simplesmente no facto de contarmos estas histórias — e, mais importante, no facto de acreditarmos nelas. Se eu quisesse definir os seres humanos numa única frase, esta serviria: os seres humanos são os animais que acreditam nas histórias que contam acerca deles próprios. Os seres humanos são animais crédulos.»
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